DISCURSO DO PRESIDENTE DA FENACI
Sr. Carlos Alberto Schmitt de Azevedo

Senhoras e Senhores:

Poucos de nós, mesmo os mais otimistas, poderiam imaginar, em nosso último congresso, que a maior preocupação, em debate, em 2008, seria como administrar a abundância de oportunidades e não a escassez. As previsões cautelosas de então se justificavam pelos tempos nada fáceis vividos pela grande maioria dos presentes, nas últimas décadas. A desconfiança, ou o pé atrás, nos fizeram desconfiar, no primeiro momento e agora temos que acelerar o passo para acompanhar as mudanças. O crescimento veio acompanhado de inúmeros desafios que sustentam a nova maneira de empreender e fazer negócios no setor. O vigésimo segundo Congresso Nacional de Corretores de Imóveis foi pensado, exatamente, entre outros temas relevantes, no sentido de diagnosticar e nos dar as habilidades necessárias a enfrentar as transformações.

Estamos desafiados a atender o vendedor, que exige eficiência, e o comprador a nos cobrar orientação diferenciada. Outras profissões podem ter obrigações semelhantes, mas no caso do corretor de imóveis, ele está lidando com a expectativa de vida de muitas famílias que têm sérias dúvidas sobre a melhor forma de concretizar o sonho da casa própria.

O sentimento que expresso nesta abertura do encontro de Fortaleza se fortalece na presença recorde, numa demonstração de consciência da classe para as necessidades de qualificação e assim absorver melhor as inovações atuais e futuras. Além disso, reflete a entrada, na atividade, de centenas de novos colegas. Somos hoje, mais de 160 mil corretores de imóveis, em todo País. Este número tem crescido nos últimos anos num ritmo de 8%, devido às perspectivas favoráveis. Saudamos os que passaram a integrar nossa renovada e fortalecida classe, ressaltando o trabalho que realizamos. A bandeira desfraldada pela Fenaci e pelos seus sindicatos de valorização do corretor de imóveis será carregada com redobrado vigor pelos mais novos. Desejamos, aos que estão chegando que os maiores desafios futuros sejam semelhantes aos vividos nos últimos dois anos. As soluções, sem dúvida, mesmo difíceis, serão muito menos traumáticas que a falta de perspectivas.

Isto não significa, entretanto que releguemos a segundo plano uma agenda importante de medidas governamentais e empresariais que afetam diretamente o mercado imobiliário e o compromisso de lutarmos por transformações políticas e sociais indispensáveis a um país que quer rivalizar com as principais economias mundiais. Entre as maiores dívidas sociais brasileiras encontra-se a calamidade das cidades onde 12 milhões de pessoas vivem em subhabitações, quase todas irregulares. As projeções indicam que, a continuar a atual situação, em 2020, que não está tão distante assim, teremos uma verdadeira tragédia, com o número de favelados somando 55 milhões de brasileiros. Sem moradia digna e saneamento não há sistema de saúde viável, porque as condições de vida são propícias à subnutrição e todo tipo de doenças. Está mais do que provado que os recursos públicos não investidos em saneamento e habitação causam prejuízos várias vezes superiores, que não têm como ser atendidos pela esgotada rede de assistência à saúde.

Se o momento imobiliário é bom para atendimento das famílias de renda superior a 10 salários-mínimos continua a falta de melhores opções para os que se situam abaixo deste valor e inexiste possibilidade para quem ganha menos de três salários. A moradia exige um tratamento especial de atendimento às camadas mais pobres, porque é um assunto que toca a dignidade humana. Sem empréstimos altamente subsidiados com recursos orçamentários da União, dos estados e dos municípios não sairemos do lugar e só veremos o problema se avolumar. Ter um teto, mesmo modesto, com saneamento básico, recupera tanto a condição humana e reincluindo na sociedade. A partir dela o homem se sente mais motivado ao trabalho e os cuidados familiares que garantem saúde, educação e segurança.

Infelizmente, os poucos exemplos de conjugação de esforços entre os governos federal, estadual e municipal, em algumas partes do País, não prosperaram pela falta de uma política uniforme e porque um dos parceiros falhou, na hora de honrar os compromissos, geralmente por interesses políticos divergentes. A Fenaci quer colocar a sua experiência e dos Sindicatos filiados a serviço dos novos prefeitos para que liderem o movimento em favor de um grande movimento que, ao menos, diminua o drama habitacional da população de baixa renda.

Os municípios reclamam da falta de recursos, mas acreditamos que a União pode criar um programa especial de repasse de recursos às Prefeituras que coordenariam a construção de núcleos habitacionais conforme as características de cada região. São os prefeitos que conhecem melhor os problemas locais e podem dar maior eficiência ao dinheiro próprio, ou vindo dos orçamentos estaduais, ou federal. Além disso, são os municípios que podem abrandar o tratamento dado aos loteamentos populares, que demoram tanto a sair do papel e os eleitos, em outubro próximo sentirão na própria pele o crescimento espantoso dos núcleos habitacionais irregulares. Apenas na minha cidade, em Porto Alegre, contam-se atualmente 900 loteamentos irregulares. Regularizar as áreas invadidas, ou retirar os ocupantes, custa bem mais caro que se houvesse uma política habitacional que ao menos prevenisse o problema.

Nosso congresso terá atingido plenamente seus objetivos se, junto com a análise de nossos desafios profissionais, alargarmos a visão para a questão habitacional dos brasileiros menos favorecidos. Colocar nossa experiência e imaginação para amenizar o déficit de moradias é um dever que nos incumbe não só como classe dos corretores, mas principalmente como cidadãos.
A exigência que recai sobre nós, junto com esta preocupação, é quase uma “reinvenção”, desculpem o termo, da forma de atuar do corretor de imóveis para que continue a ser um profissional competitivo e adaptado aos novos tempos. O mercado ressurgiu das cinzas, fora dos paradigmas conhecidos até então. Hoje, não basta mais termos facilidade de comunicação e conhecer detalhes do Plano Diretor da cidade, direito imobiliário, financiamentos e taxas de juros. Com o ingresso de grandes construtoras e imobiliárias na Bolsa de Valores e atuação abrangente nos diversos estados, temos que estar bem informados sobre comportamento de ações, saúde financeira e advento das transações imobiliárias pela internet. O comprador mais esclarecido que utiliza a informatização como ferramenta de informação, já vai visitar os imóveis que escolheu entre os diversos sites de construtoras ou imobiliárias. Ele pedirá nossa ajuda para confirmar suas convicções e quer conselhos fundamentados se deve ou não ir adiante na negociação de compra.

Outra circunstância que exige nossa atenção é que o perfil do mercado está mostrando algum deslocamento da demanda, até agora concentrada na média e alta renda. Houve uma melhoria de renda na faixa de compradores de menor poder aquisitivo, trazida pelo aquecimento da economia, em diversas categorias profissionais. Um claro sinalizador da nova tendência são os feirões da Caixa Econômica Federal, onde a maior procura recai sobre imóveis retomados, ou novos, com preços de até R$ 60.000,00, em média e que atende, em parte, a falta de alternativas das famílias que compõem os números do déficit habitacional. As construtoras, inclusive as de grande porte, já perceberam esta demanda reprimida. Através de métodos construtivos de menor custo e adaptação de projetos, a que se juntam financiamentos que atendem as condições de renda dos interessados, abre-se uma imensa nova oportunidade de vendas. Há até mesmo o sacrifício da margem de lucro de cada unidade, já que o valor menor é largamente compensado pelo aumento do número de potenciais compradores.

Certamente este será um congresso onde a rotina e o lugar comum estarão ausentes. Ninguém poderá dizer, ao final, que ouviu temas repetitivos, a não ser o da cobrança das autoridades para uma postura mais ativa na questão da habitação social. Nas inovações voltadas para o exercício profissional, destacam a realização de dois cursos técnicos ministrados por especialistas da NAR Associação Americana de Corretores de Imóveis, que congrega mais de 1 milhão e meio de profissionais. Os Doutores José augusto Nunes - Presidente da NAR para o Brasil e Dr. Laerte Temple - Superintendente do Secovi-SP. O primeiro mostrará como o corretor de imóveis deve atender o cliente através da Internet. O atendimento sentado na frente do computador já representa a maior fonte de captação de compradores, em algumas capitais brasileiras, superando placas e anúncios de jornal. O outro curso, irá certificar e habilitar os corretores de imóveis brasileiros a fazerem parte de uma grande rede mundial com presença em 32 países, e que a Fenaci juntamente com seus sindicatos, e o Secovi-SP representarão o Brasil nesta grande rede mundial. A questão da formação do corretor de imóveis será ampliada, ainda, com fóruns específicos para abordagem de matéria dos níveis técnico e superior. E aqui, uma preocupação especial, com um painel específico para debater a crescente participação feminina na profissão, que hoje já corresponde a aproximadamente 30%.

Os desafios que nos propomos a debater aqui no Ceará, como dissemos no início, são bem menos penosos que o da falta de oportunidades. Chegaremos ao final do ano, registrando um crescimento superior a 20% nas vendas sobre o ano passado e as perspectivas continuam favoráveis para os próximos anos. A construção civil, juntamente com o agronegócio, é a responsável pelo crescimento do Produto Interno Bruto do primeiro semestre acima da previsão. O montante de contratações do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) é recorde, se aproximando do dobro do ano anterior.

Poucas vezes, na história dos congressos nacionais de corretores de imóveis, tivemos tantos motivos para nos alegrar com os avanços do setor imobiliário e as excelentes perspectivas. O governo é importante, mas a consolidação do bom momento e os avanços do mercado imobiliário dependem muito de nós e como nos articularmos com outros importantes elos da cadeia da construção civil, que vai desde a produção até a entrega da moradia. Corresponder a esta expectativa exige uma união de esforços em torno das entidades sindicais, em cada Estado e da própria Fenaci.

Deixamos para trás a função de apenas sermos prestadores de serviços. Somos hoje, muito mais, consultores, orientadores e até conselheiros de quem empreende, ou de quem compra um imóvel. E se cada um sair deste congresso mais seguro no cumprimento destas nobres funções estaremos plenamente realizados.

Que Deus ilumine os trabalhos que se iniciam hoje, muito obrigado.